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Residency Residency Focus

Entrevista com Aline Motta [BR]

Não corte os negativos © Aline Motta

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Aline Motta

Como parte de nosso «FOCO EM RESIDÊNCIAS» convidamos a artista brasileira Aline Motta para responder algumas perguntas sobre sua residência remota Home Not Alone durante a pandemia, ao longo de 2020, sobre como as idéias de pertencimento, memória e ancestralidade atuam em sua prática, e os movimentos entre artes visuais e literatura.

Você pode contar pra gente um pouco da sua trajetória? Como você vê o papel das residências artísticas e trocas? Qual o impacto disso na produção dos artistas?

Minha trajetória nas artes é um pouco não convencional e acabou se tornando um reflexo dos meus diferentes interesses, conhecimentos e práticas que fui acumulando durante duas décadas. Finalmente quando obtive as condições financeiras para realizar os trabalhos, eles praticamente vieram todos de uma vez e com grande intensidade. As obras envolvem pesquisas, tanto em torno da historiografia brasileira, quanto a partir do meu acervo familiar e emocional. Eu tenho dito que é a história da minha família, mas poderia ser também da sua. É uma experiência bastante íntima e pessoal, mas ao mesmo tempo, recebo muitos retornos de pessoas, principalmente pessoas negras, que têm se identificado e trazido suas próprias narrativas para dentro do trabalho, como se ele realmente construísse uma ponte entre as nossas vivências comuns.

Quanto às residências artísticas, de uma maneira geral, percebo trocas bastante assimétricas entre os artistas e as instituições, que replicam as mesmas lógicas predatórias e desiguais, tanto do mercado de arte, quanto das diferenças entre a situação política e econômica dos países do sul global em relação ao norte hegemônico. Mas no caso da residência Pro Helvetia algo muito interessante foi proposto: a troca intelectual com Zainabu Jallo, doutoranda em Antropologia na Universidade de Bern, que têm pesquisas convergem com as minhas em diversos pontos. Esta proposição de diálogo fez toda a diferença. Temos feito aproximações e encontros muito ricos que, com certeza, continuarão após o período da residência. Talvez este modelo de residência que proponha trocas mais horizontais possa continuar a ser aplicado e ampliado no futuro.

Não corte os negativos © Aline Motta
Não corte os negativos © Aline Motta

Em seu trabalho, o texto tem se tornado cada vez mais um elemento presente. Como você vê a relação e o movimento das artes visuais para a literatura? Quais as possibilidades que existem nessa intersecção que não necessariamente a reduz a um “livro de artista”?

No meu caso, a literatura foi se aproximando da minha prática artística naturalmente, que já envolvia, não só muita leitura, mas também a escrita das narrações dos meus vídeos, por exemplo. Também já havia criado alguns livros de artista, que traziam mais experimentações gráficas e poesia visual. Até que esses fragmentos textuais que venho escrevendo ao longo dos últimos dois anos foram se adensando e tomando a forma de um livro, que é uma síntese de todas essas experimentações, mas que tem na sua base o texto literário. Estou trabalhando agora numa adaptação do livro para ser editado mais formalmente como um livro de literatura, e, que não se encaixe tanto como “livro de artista” que normalmente tem um público mais restrito, mas que possa ser lançado e distribuído amplamente. A residência Pro Helvetia, além de proporcionar o tempo para esta revisão mais apurada, tornou possível a tradução do livro para o inglês, o que é algo a ser celebrado, pois amplia muito as possibilidades de que ele seja editado fora do Brasil também. Infelizmente algo ainda bastante raro para autorxs brasileirxs.

Uma boa parte da sua pesquisa se debruça sobre questões como memória, território e pertencimento. Para você, como é a interação desses temas tão potentes do seu trabalho com os entornos onde eles se inserem? Como o entorno afeta a sua prática atualmente?

Esta é uma pergunta muito interessante, pois morei toda a minha infância e adolescência em Niterói e a relação da cidade com suas águas, principalmente a Baía de Guanabara, marcou minha vida para sempre. Olhar todos os dias para aquela paisagem com a entrada da Baía, os contornos da cidade do Rio de Janeiro do outro lado com seus prédios e montanhas, e uma construção arquitetônica monumental, que é a ponte Rio-Niterói, acabaram por se fazer presentes em todo o desenvolvimento da minha poética. Hoje em dia eu moro no centro de São Paulo, que é uma cidade que se localiza num planalto numa altitude considerável, e eu ainda moro num andar bem alto de um prédio icônico da cidade. Tenho uma vista que consegue enxergar até a Serra do Mar, que fica a muitos e muitos quilômetros de distância. Principalmente com a pandemia, esse olhar cotidiano para uma cidade bastante cinza me trouxe um esforço de imaginação enorme para conseguir visualizar os rios soterrados da cidade e a natureza que um dia já existiu. Também é preciso muita imaginação para entrever que depois da Serra do Mar, tem mesmo um mar do outro lado. De modo que esses exercícios de observação da paisagem externa em sobreposição às paisagens da minha imaginação continuam informando meu trabalho e ampliando os sentidos deste pertencimento. As águas são veículo de memória, são máquinas do tempo. Evocar presença da água é uma maneira de pertencer em um outro espaço-tempo.

Para mim, a criação se dá pelo atravessamento destas dimensões fluidas, vislumbrando que algumas perguntas continuarão sem respostas, e alguns segredos permanecerão um mistério.

 

Sobre Aline Motta
© Aline Motta
© Aline Motta

Aline Motta nasceu em Niterói (RJ), vive e trabalha em São Paulo. É bacharel em Comunicação Social pela UFRJ e pós-graduada em Cinema pela The New School University (NY). Combina diferentes técnicas e práticas artísticas, mesclando fotografia, vídeo, instalação, performance, arte sonora, colagem, impressos e materiais têxteis. Sua investigação busca revelar outras corporalidades, criar sentido, ressignificar memórias e elaborar outras formas de existência. Foi contemplada com o Programa Rumos Itaú Cultural 2015/2016, com a Bolsa ZUM de Fotografia do Instituto Moreira Salles 2018 e com 7º Prêmio Indústria Nacional Marcantonio Vilaça 2019. Recentemente participou de exposições importantes como “Histórias Feministas, artistas depois de 2000” – MASP, “Histórias Afro-Atlânticas” – MASP/Tomie Ohtake. Abriu sua exposição individual “Aline Motta: memória, viagem e água” no MAR/Museu de Arte do Rio 2020.